Um dos maiores escândalos ambientais da história de Porto Alegre
Em meio a incríveis incêndios, ao turbilhão político e ao pandemônio da Covid-19, está passando uma “boiada” de revezes ecológicos de extrema relevância quase que despercebidamente. Mas se eu dissesse para você que vão detonar a energia equivalente a duas bombas atômicas de Hiroshima ao longo de 20 anos ao lado do centro de Porto Alegre? Que essas bombas podem gerar falhas geológicas e abalos sísmicos em Porto Alegre? Que as solas dos pés dos seus filhos ou netinhos poderão ficar pretos de fuligem mesmo no seu pátio ladrilhado – e que eles até vão achar normal? Que políticos de esquerda à direita assinaram embaixo de um projeto que pode empestear o ar de Porto Alegre e matar (rápida ou lentamente) de forma praticamente invisível através de partículas finas que podem se espalhar pelo pulmão, corrente sanguínea, cérebro, placenta e coração? Que a água que compõe cerca de 70% do seu corpo poderá ficar contaminada com metais pesados e cancerígenos? Parece até ficção científica, né? Ou uma historinha de distopia de segunda categoria?
Mas, infelizmente, não é sensacionalismo barato. Isso é o que o professor de Geologia da UFRGS Rualdo Menegat e a rede Medicina em Alerta estão tentando explicar aos habitantes da grande Porto Alegre: estamos a um passo de ter a maior mina de carvão a céu aberto da América Latina a menos de 20 km do centro de Porto Alegre! Esse foi o tema de destacada reunião médica no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, ligado a UFRGS, onde recentemente debateram professores de pneumologia, geologia e genética.
As evidências científicas contra esse tipo de empreendimento são tão contundentes e grotescas que já é consenso científico mundial que carvão mineral deve ser banido como fonte de energia. O que está prestes a acontecer a 20km de Porto Alegre pode ser um dos maiores escândalos ambientais da história moderna da cidade.
Não é à toa que oito sociedades científicas gaúchas (medicina de família, pediatria, neurologia, genética, bioética, cardiologia, psiquiatria e medicina do trabalho) liberaram pareceres públicos independentes alertando contra os futuros riscos da poluição da maldita Mina Guaíba. Enquanto isso, a Europa está avançando rapidamente no banimento total de carvão mineral de sua plataforma energética e apostando no enorme potencial econômico de gerar mais riqueza, equidade, e empregos melhores com investimentos maciços em energias renováveis – o que tem sido recomendado pelo movimento #HEALTHYRECOVERY (recuperação saudável). Essa proposta, apoiada por entidades que representam juntas mais de 40 milhões de profissionais de saúde ao redor do mundo, sustenta que o melhor caminho econômico de recuperação pós-Covid é investir em ambientes locais saudáveis e garantir um clima estável para o planeta.
Texto originalmente publicado no Grupo Matinal Jornalismo, em 27/11/2020.
Enrique Falceto de Barros é Médico em Alerta e professor da Universidade de Caxias do Sul. Também cofundador do projeto Porto Ar Alegre/PACTO ALEGRE, integrante e cofundador do Grupo de Saúde Planetária do Instituto de Estudos Avançados da USP e coautor dos Relatórios Brasileiros do Lancet Countdown 2018 e 2019. Coordena o GT de ambiente da Organização Mundial dos Médicos de Família.
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Solicite uma AIS independente para o projeto da Mina Guaíba
Seis sociedades médicas e duas sociedades da saúde gaúchas emitiram pareceres técnicos solicitando uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS) independente e de acordo com critérios da OMS (Organização Mundial da Saúde) para o projeto de exploração de carvão mineral da Mina Guaíba-RS (consulte aqui o dossiê) . A AMRIGS (Associação Médica do Rio Grande do Sul) também já se posicionou (leia aqui) sobre os riscos que o projeto da Mina Guaíba pode oferecer à saúde. Junte-se a elas e assine o pedido pela AIS.